Hasteiem logo a bandeira do preconceito. Vistam logo suas camisetas de ódio. Rosnem agora todo o nojo que sentem contra os que se diferenciam. Estraçalhem logo as peças redondas nos buracos quadrados. Larguem a capa da hipocrisia e parem de arrotar igualdade quando, ao mesmo tempo, por de trás desse discurso de fachada, concordam, curtem e aplaudem os que tentam permanecer com todo o preconceito responsável por torturar, perseguir e promover sofrimento e morte de milhões na história do mundo. Voltem logo para as cavernas!

Exo.

Mundo,

um segundo conexo

segundo posterior

sem nexo.

E em milésimos

brotam milhões

de (i)mundos.

É muito sexo

sem tesão,

verdade

sem razão.

É muita opinião

que me deixa

perplexo.

É muito tesão

para pouco

sexo.

É opinião sem razão,

verdade sem nexo.

.

Tia Glória,

não me ensinastes

em sala quadrada,

que nosso mundo é redondo?

Meio…

Circunflexo?

Por que sinto-me em vida quadrada,

sendo que vivo em

planeta redondo?

Meio…

Complexo?

Bem, tô tentando até agora

achar o nexo.

Vai ver eu perdi mesmo

Foi o reflexo.

P.S.: Afinal, todo poema é exo. Pode ser sem nexo, sobre sexo ou ser sem acentos circunflexos. Mas, repito: todo poema é exo. Todo poema é motor de ideias que saem de dentro e se externalizam. Todo poema é de dentro e vai para fora. É exo(rcismo).

Luna de sangue

Certo dia, ao despertar de errados sonhos inquietantes, me deparei na cama transformada em terrível formato circunférico. Minha pele estava arenosa e tomada por pequeninas crateras que me deixavam terrivelmente feia. Ao me esforçar para levantar da cama, escorreguei pela colcha e rolei, caindo ao chão desconcertadamente.
Ao banheiro corri e de frente ao espelho chorei. Estava sem brilho, gorda, pálida e feia. Parecia mais uma obra de mal gosto feita por Deus em um dia de fúria. De repente, uma hipótese: és tudo obra de um pesadelo de mal gosto pregado pelo meu cérebro cansado. Me belisquei e mais uma pequena cratera em mim formei. Era tudo obra da maldita realidade. Aos céus indaguei: por qual monstruoso pecado mereci ser transformada, do dia para noite, em uma desconcertante monstrinha gorda?!
Tanta gente pra ser sorteada na praga neste mundão e justo a mim, neste justo dia! Como ia explicar para o Ivo a ausência na reunião? Abalada, ao chão recorri - e por conta do desnível do banheiro e de meu mais novo rechonchudo corpo, rolei devagarinho rumo ao ralo (a metáfora perfeita para a situação, inclusive).
Não poderia me dar ao luxo de ficar rolando de lá pra cá em meu banheiro, praguejando Deus e o mundo por conta disso. Ninguém teria compreensão o suficiente (talvez soasse até como desculpa esfarrapada). Com esforço abusivo, tentei por longos e cansativos minutos levantar, até finalmente conseguir de fato, me apoiando ao rodo.
Tentei me maquiar, para tapar minhas vergonhas, mas a pele não mais aceitava. Pus o mais frouxo vestido e mesmo assim ele ficou extremamente atarracado (um custo foi pô-lo, não só pelo formato diferente do vestido e do corpo, mas também pelos meus novos pequenos bracinhos). Ao sair da porta - um tamanho custo - deparei com estranheza com o que encontrei lá fora. Apesar de ter ciência daquilo que me cercava, me sentia estrangeira em minha própria rua. Estava envergonhada de mim e tentava com desconcertados três jeitos tampar a aparência feiosa.
Parti em direção ao ponto de ônibus e nos primeiros passos notei que os que passavam por mim não davam a mínima para a aparência grotesca que eu tinha. Se quer importavam com a grande dificuldade que apresentava ao andar.
Ao olhar para as placas dos ônibus não consegui mais decifrar as letras. Tudo não passava de signos sem lógica aparente. A cada segundo me sentia mais apartada do mundo torto com meu corpo gordo. Desorientada, perguntei aos em minha volta se meu ônibus havia passado, mas o silêncio foi o único retorno dado. Talvez não tivessem me ouvido - muitos ouviam música. Perguntei de novo e mais alto. Nada. Mais alto. Nada.
Mais alto.
Nada!
Mais alto.
Nada!
Berrei.
Acenei.
Nada!!!
Cogitei, meio à exclusão e fúria, que a invisibilidade total fosse mais uma infortuna realidade da minha nova vida de praga. Desgostosa, notei que por conta dos acenos, forcei o vestido, rasgando-o por toda lateral. Furiosa, terminei de rasgá-lo, ali mesmo, em frente todos, desnudando-me aos que quisessem assistir. Mas nenhum espectador tive, nenhuma olhada de canto de olho. Nada. Ignorada de forma circunférica e nua para mim mesmo, andei doida e doída rumo à casa novamente.
No caminho, os que andavam contra mim, não esboçavam qualquer reação ao passarem por uma bola viva e deforme andando nua e pálida pelas calçadas. Chorosa por todo o mundo cão que estabelecera em minha vida num estalar de dedos, escorei em um cantinho de um grande muro e lá fiquei em copiosas lágrimas. Quanto mais me via ao fundo do poço, mais sentia o desamparo do mundo para comigo.
Minhas forças se esvaíram e a tardinha já se ia, dando espaço à noite. Lá ainda estava, intacta no mesmo local, apenas testemunhando o ir e vir da cidade compulsória. Quanto mais a penumbra dava lugar ao ambiente, mais notava que minha pele perdia sua palidez. Quanto mais escurecia, mais eu percebia que começara a ganhar olhares.
Ao chegar a noite total, me assustei por completo: minha pele brilhava e cintilava constantemente, chegando a doer meus olhos. Um pouco tonta e extasiada com aquela nova situação (justo agora que havia começado a acostumar com minha redondez), tentei levantar, bambeei as perninhas, tropiquei e caí. Quando me dei por conta, um grande círculo de inúmeras pessoas haviam se formado em torno de mim. Embasbacados, tiravam compulsoriamente fotos. De repente, todo o cenário de minha vida mudara novamente: da exclusão total ao instantâneo espetáculo público.
Provavelmente minha luminosidade escondia meus defeitos, tornando-me visível e atraente aos demais. As pessoas continuavam juntando-se em volta de mim, tirando fotos e ligando para as outras, espalhando a notícia de minha existência. Devido ao meu rápido sucesso noturno, minha luminescência não demorou para chegar aos ouvidos do governo, que logo tratou de encaminhar viaturas ao local, me capturando abruptamente.
Na delegacia fui indagada se fazia parte de um atentado terrorista ou comunista contra o governo. Respondi - como costumo responder idiotices - com um riso sarcástico de canto de boca. Após um período de tempo me provaram, pela existência de inúmeros documentos, que eu era propriedade governamental e deveria ser de exposição pública em praça. Me informaram que os interessados em provarem de minha luz, pagariam aos cofres públicos a quantia de R$ 1,50.
Atordoada e aflita com tamanha desgraça em tão pouco tempo, berrei em surtos e rolei em prantos reivindicando em fúria o meu direito de rolar e voltar. Fui arrastada para dentro de um furgão e lá mesmo me entreguei à exaustão daquele inferno corporal.
Acordei e já era dia. O meu nome, já era outro: Luna, assim me chamavam. Lá estava eu fixa e imóvel em um pedestal, tornando-me elevada em relação aos demais transeuntes. Todos poderiam ver-me por toda a extensão daquela senhora praça. Mas, já era dia e todo o meu sucesso se esvaiu ao findar da noite - novamente, era invisível aos demais. Só me tornaria espetáculo público ao anoitecer dos dias, sendo exposta à exaustão. Fui fotografada e exibida por todos, fui motivo de turismo para muitos.
De um dia para o outro veio o ruir do meu mundo, o sucumbir de minha vida. De um dia para outro, uma bola gorda luminosa me tornei, em cartaz por tempo indefinido. Quanto mais passavam os dias, mais raquítica e minguada ficava - meu brilho foi apagando aos poucos, mesmo a noite. Fui me tornando desinteressante ao grande público, e minha existência desnecessária a mim mesmo.
Se continuar minguando mais - disse os homens do governo ao me examinarem - acabaria entrando em colapso. Imaginava que aquela visita iria me trazer o resgate por parte deles e o esquecimento por parte de todos, mas não foi isso que ocorreu. Continuei pregada à praça e marcaram apenas o provável dia de meu colapso: 8 de outubro.
Dia 8 tornaria-se então dia de evento na cidade. O meu colapso seria assistido e transmitido por muitos. Havia expectativa para o grande show de minha desgraça. Até o chegar do grande dia, me minguava cada vez mais. Vivia cada vez menos. Ate o chegar do dia 8, fui esquecida pelo mundo, mesmo ao anoitecer.
Dia 8. A praça tinha sido decorada por homens do governo durante o dia. Meu pedestal havia sido reformado e também decorado. A fila para minha exibição metade forca, metade haraquiri, era grande mesmo quando ainda era claro. A expectativa alta dos humanos era proporcional a angústia que sentia - tanto é que comecei a agradecer aos céus pelo meu provável fim.
A noite havia invadido a cidade. Meu corpo sem brilho começara a ficar febril e minha pele, avermelhada. Meu último feixe de luz acabara de partir e fui tomada por um calor carmim e ardente. Gritava aos montes e era escutada pelo nada - mas observada pelo tudo. Sangrava pela pele enquanto me esvaziava por dentro. Ao viver de meus últimos suspiros, ouvi, no meio de toda exultação daquela multidão, o cochicho de uma voz amada:
“És bela, mesmo sendo redonda. Prossegues em morte, iluminando este mundo de vida. Não resmungues de seu chamado. Seja pura, mesmo na praga de seu pior pecado. Seja linda, mesmo no caos. Seja visível a todos, mesmo sem platéia. Ao morrer, tornes estrela redonda neste céu quadrado. Tu consegues, pois és e continuarás a ser, Luna de sangue.”